sábado, 23 de abril de 2011

A NOIVA DO JURACI / ESTÓRIA NAVAL.

O Juraci era um suboficial natural do Rio de Janeiro, criado com aquela rapaziada acostumada a sambar, andar naquele TL (trem lotado), vibrar  no Maracanã em dia de Fla x Flu, andar de bermuda e frequentar praia sempre que o sol dá as caras. A rapaziada era assim, mas o Juraci era mais light: calmo, atencioso ao receber uma faína, mas esquecido na hora de executar alguma missão. Esse pequeno problema, já constatado por ele mesmo, era devido a um dos lados do cérebro não funcionar, dizia ele.Tinha ido ao médico e o profissional diagnosticara o problema. Aí ele colocava a mão direita no meio da cabeça e com o dedo indicador da mão esquerda mostrava:
 - Este funciona, apontava o esquerdo e este não, mostrava o direito. 
Um dos motivos que o fizeram ser transferido para Belém é que, separado da segunda esposa, queria começar vida nova. Queria esquecer aquilo e quiçá arrumar uma boa noiva, econômica (a ex era perdulária), bonita e que fosse sua alma gêmea, ele era consciente que existia, dizia que também era filho de Deus.
O outro problema era desembarcar da Esquadra, já conhecera quase tudo durante seus anos de embarque, que não eram poucos.
Sempre que cruzavámos o Juraci prestava continência, eu respondia e normalmente eu perguntava: - E a saúde?
- Estou bem. Respondia ele.
- E a noiva, já arrumou?
- Não chefe, está difícil. Respondia.
Certa vez chegamos em um município paraense num sábado, por volta de cinco da tarde. Ficou estabelecido que trabalharíamos no domingo e lá pelas seis e meia da tarde, daquele mesmo dia, regressaríamos.
O Juraci saiu sábado a noite com outros membros da tripulação e ao voltarem, o juraci estava radiante. Durante o café da manhã de domingo, o comentário era geral: o Juraci arranjara uma namorada e era bonita.
Como a maioria sabia do interesse dele em casar novamente, incentivavam para que ele contasse alguma coisa sobre a felizarda. Ele limitou-se a dizer que tinha marcado um almoço com ela na praia, mas não sabia se podia comparecer por causa dos serviços programados para o dia. A turma foi solidária e quase em uníssono pediram a liberação do Juraci.
No poderia deixar de ser concedida, afinal de contas, cupido estava na área.
Na hora do almoço, o Juraci dispensou o rancho, pois, ia almoçar com sua “princesa”. Foi ao grande encontro.
Almoçamos, ficamos por ali e quando era mais ou menos quatro da tarde, lá vem o Juraci.
A turma ficou atenta no portaló (local de entrada do navio) para saber das novidades. Ele entrou, fez a continência e ficou ali mesmo. Um sargento mais afoito perguntou logo a data do casamento.
Foi quando o Juraci comentou: - pois é, eu cheguei lá e ela estava com uma cerveja na mesa. Após os cumprimentos regulamentais, descansei as pernas( em marinha diz-se que marinheiro não senta!).
 - Você demorou meu bem, pensei que não estivesse interessado – Disse ela.
- Como eu poderia faltar? Respondi.
Dirigindo-se ao garçom, ela falou:
-Traz mais um copo e a encomenda.
O garçom trouxe o copo e um tucunaré assado. Não era pequeno.Só que surgiu não sei de onde, três garotos e os quatro, devoram o tucunaré. Chegou rápido e sumiu mais rápido ainda, não sei como. Admirava-se o Juraci.
- Nesse instante, surgiram mais três rapazes, esses, já mais crescidos e tendo reclamado que os primeiros não deixaram nada, ela chamou o garçom e novamente ordenou: - traz o outro.
- O garçom obedeceu. E como os três estivessem reclamando de sede, ela pediu mais uma cerveja e uma coca de dois litros. O garçom trouxe e os sete pareciam um cardume de piranhas, devoraram tudo, ficou só aquela espinha grande. Como é o nome mesmo? - Espinhaço. Eu disse.
O Juraci continuou: - terminado tudo ela vendo que meu copo estava vazia pediu mais uma cerveja, o garçom trouxe, encheu meu copo e tomou o restante com os dois maiores.
 Após acabarem com tudo a rapaziada sumiu. Ela chamou o garçom novamente e pediu três pacotes de biscoitos e a conta. Mais uma vez o garçam atendeu. Ao receber a conta ela olhou e passou pra mim dizendo:
- Paga aí meu bem, as bolachas é pros meninos merendarem mais tarde.
- Fiquei olhando tudo, cento e quarenta e cinco reais. Você já vai?Eu perguntei.
- Não, vou esperar os meninos, aqueles são os meus filhos. Ela respondeu.
- Eu chamei o garçom, mandei ele tirar os pacotes de biscoito da conta, paguei e disse que vinha pra bordo.
- Ela ficou uma fera, disse que nunca tinha visto uma pessoa tão miserável, bem que tinham avisado pra escolher bem aquele que seria o verdadeiro pai dos filhos dela, dessa vez vira que se enganou redondamente, logo ela, macaca velha e continuou a vociferar poucas e boas pra mim, mas eu não fui na guerra. Larguei as espias. Dasabafou o Juraci.
 - Mas Juraci quer dizer que você pagou mais de cem reais e tomou dois copos de cerveja e nada mais? Eu disse.
- Qual nada Chefe, só um copo e meio, porque o primeiro não foi cheio, ela já tinha tomado a cerveja quase toda.
- E agora? Perguntou o cozinheiro.
- Estou com fome, com sede, cansado desse sol e pra completar duro. Será que ainda tem rancho? Lamentou-se o Juraci.
Como já estávamos preparando pra suspender, o Juraci olhou para terra e desolado disse: ganhei experiência.

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